O estudo dos seixos rolados sumariamente transformados por talhe no âmbito das indústrias líticas de quartzite do
Paleolítico Português
João Pedro Cunha-Ribeiro
O estudo dos seixos rolados sumariamente transformados por talhe no âmbito das indústrias líticas de quartzite do
Paleolítico Português
João Pedro Cunha-Ribeiro
Estudos em Homenagem a Luís António de Oliveira Ramos
Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2004, p. 453-467
Um olhar sobre o passado
A persistente utilização da quartzite como matéria-prima para a produção das mais diversas peças líticas talhadas é uma realidade desde sempre reconhecida pelos investigadores que dedicaram alguma atenção ao estudo da nossa Pré-história nas suas fases mais recuadas.
0 próprio General Carlos Ribeiro, a quem muito justamente se atribui um papel de destaque no nascimento da Arqueologia Pré-histórica em Portugal, não só o deixava transparecer na titulação da sua primeira obra sobre os remotos vestígios da presença do homem nas bacias dos rios Tejo e Sado -
Descripção de alguns silex e quartzites lascados encontrados nas camadas dos terrenos terciario e quaternário das bacias do Tejo e do Sado - como também aí sublinhava a circunstância de a quartzite ter sido "raramente empregada pelo homem ante-historico que habitava latitudes differentes das nossas, para o preparo dos seus utensilios e armas" (Ribeiro 1871, p. 54). Na apreciação das características de tais materais o referido investigador já destacava, porém, a presença de "formas particulares, devidas tanto ao modo de lascar d'esta rocha, aliás muito diferente da do silex ou da ágata, como a terem sido geralmente separadas as lascas de seixos rolados de quartzite, de figura ovoidal mais ou menos oblonga, como está indicado nas formas dos núcleos e das lascas rejeitadas" (Ribeiro, 1871, p.9). Mais adiante reconhecia-se que a diversidade morfológica de tais peças resultaria do "ponto do seixo ferido pela pancada", mesmo se "o trabalho de lascar aquelles seixos foi activo, e era sempre dirigido e executado do mesmo modo, ou sob determinadas regras" (Ribeiro, 1871, p.55).
Esta precoce e promissora avaliação dos condicionamentos morfológicos e das particularidades técnicas associadas à produção de materiais líticos talhados em quartzito não teve a continuidade merecida. As preocupações prevalecentes centraram-se num primeiro momento no estabelecimento da grande antiguidade do homem, questão essa queem Portugal se circunscreveu essencialmente à discussão, iniciada aliás por Carlos Ribeiro, em
torno da existência de vestígios do homem terciario, para em seguida se passar a valorizar o maior ou menor apuro morfológico e técnico de algumas
peças líticas emblemáticas, como era por exemplo o caso dos coups-de-poing, por forma a determinar o carácter mais ou menos evoluído e a consequente posição cronológica relativa dos conjuntos arqueológicos a que se pressupunha que tais artefactos se encontrariam associados (Cunha-Ribeiro, 1995-1997).
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