sexta-feira, dezembro 12, 2008

O fenómeno campaniforme (1)

Profundas transformações sociais
O campaniforme não foi uma «cultura» no sentido arqueológico (e portanto algo restrito) do termo. Foi um fenómeno sem paralelos na Pré-História europeia. Uma realidade única, que passou a chamar-se o fenómeno campaniforme. Depois de descartado o fantasmagórico «povo campaniforme», os arqueólogos puseram-se de acordo que este fenómeno traduz uma profunda transformação política, social e cultural em toda a Europa pré-histórica.

Este é o cerne das conclusões a que chegaram os cientistas do Instituto de Pré-História da Universidade de Freiburgo depois de um intensivo workshop – mas também a opinião de especialistas como João Luís Cardoso, que conheceu o fenómeno de primeira mão durante as escavações do povoado fortificado de Leceia.

Mas antes de entrar no âmago da questão social e cultural, vamos primeiro ver em que aspectos materiais se manifesta «o campaniforme». Vamos analizar a cerâmica que deu o nome a todo este «fenómeno».

Cerâmica de qualidade...
Podemos classificar as peças de cerâmica campaniforme, como propôs David Clarke, de «objectos de luxo», ou de «bens de prestígio» porque, dentro do universo dos artefactos do fim do Neolítico, o estilo campaniforme surpreende-nos por ser uma cerâmica de qualidade com vistosas decorações.

É um estilo inconfundível; mesmo pequenos fragmentos destas cerâmicas permitem aos arqueólogos reconhecer este estilo sem hesitações. ...e os artefactos associados Junto com a cerâmica campaniforme era comum depositar nas sepulturas um set de artefactos. A este conjunto de objectos podiam pertencer um punhal de cobre de lingueta ou belas pontas de seta, ou também anéis decorativos, de ouro – tudo depende da zona.

Em algumas regiões são pontas de seta, de pedra, de forma bem barroca; ou até pontas de seta fabricadas já em cobre, como é o caso das pontas de Palmela. Ou são braçais de arqueiro, que conhecemos em formas variando do rectangular plano ao côncavo; umas simples, outras adornadas com pregos de cobre – ou de ouro.

O túmulo de Fuente Olmedo (Valladolid) continha um punhal de lingueta em cobre, 11 pontes de seta Palmela, um diadema de ouro, um braçal de arqueiro, uma ponta de sílex e vários recipientes cerâmicos. É um dos enterros mais ricos dos campanifor-mes europeus.

O punhal, as pontas de seta e o arco (este substituído pelo braçal de arqueiro) ilus-tram o carácter guerreiro de muitos defuntos; sem dúvida que o militarismo já gozava de forte protagonismo entre os «convertidos» ao campaniforme.

Estes artefactos depositados ao lado das belas cerâmicas campaniformes são sempre objectos excepcionais, de luxo, de prestígio. Em linhas gerais, estes conjuntos funerários ou «pacotes campaniformes» falam-nos da elevada posição social do defunto.


http://algarvivo.com/arqueo/calcolitico/campaniforme.html

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