GRUTA DE AVECASTA NA ROTA MUNDIAL DA ARQUEOLOGIA
Luíz Oosterbeek em entrevista:
O director científico do Museu de Arte Pré-Histórica de Mação revela que a Gruta de Avecasta vai entrar na rota da arqueologia mundial e fala da ligação do museu com Ferreira do Zêzere
A Gruta de Avecasta, localizada na freguesia de Areias, Ferreira do Zêzere, cujo acesso há muito está vedado, ficará referenciada como ponto de visita numa publicação sobre Pré-História de Portugal, que será apresentada em Setembro de 2006, no Congresso Mundial de Arqueologia, disse Luiz Oosterbeek.
Sem que actualmente existam condições para visitas, deverá assumir particular importância, o papel da associação de arqueologia Arqueojovem, que ficará sedeada em Ferreira do Zêzere.
Luiz Oosterbeek, director científico do Museu de Arte Pré-Histórica e do Sagrado do Vale do Tejo, localizado em Mação e que completará 1 ano de abertura ao público no próximo dia 18 de Março, falou ainda sobre a importância daquela estrutura para a região, que constitui também um ponto de encontro de diversas nacionalidades, pelos estudantes que ali acorrem ao Mestrado Pré-História e Arte Rupestre, único na Europa.
– Com que propósito surgiu o Museu em Mação? Porquê Mação?
Luiz Oosterbeek (LO) - O Museu foi pensado pelo Dr. João Calado Rodrigues há várias décadas, e veio a ser fundado na década de 1980, sendo um dos mais antigos museus municipais em Portugal. Na ocasião, tal deveu-se à precursora visão estratégica da autarquia, aliada a um importante acervo de colecções arqueológicas e etnográficas.
Em 2000, quando uma equipa de arqueologia do CEIPHAR e IPT fazia o acompanhamento da construção da actual A23, foram descobertas gravuras rupestres, que constituem parte visitável do grande complexo rupestre do vale do Tejo. Esta descoberta colocou a necessidade de proteger e valorizar esses vestígios e daí, a partir de uma solicitação da autarquia, foi concebido um projecto estratégico global, centrado na renovação do museu e na sua afirmação como centro de referência europeu.
Hoje, o museu é o centro de diversos projectos internacionais, nos domínios da arte rupestre, dos riscos naturais que afectam o património ou da gestão de qualidade do património. E é o local onde é ministrado o único Mestrado de Pré-História e Arte Rupestre da Europa, acolhendo alunos de diversos países.
Como sempre em projectos desta natureza, as vontades institucionais são essenciais, e aqui se combinam as dinâmicas da Câmara Municipal de Mação, do CEIPHAR e do Instituto Politécnico de Tomar.
– Vários, e de diversas nacionalidades, têm sido os estudantes que utilizam o Museu, quer para estágios, quer para desenvolvimento de pós-graduações nos seus cursos. De que forma se está a processar esta vertente do Museu e que eco tem obtido dos próprios estudantes, não só no âmbito das suas pesquisas, mas também da integração numa localidade do interior português?
LO - Como referia antes, frequentam o Mestrado cerca de 3 dezenas de estudantes, cerca de um terço dos quais provêm do Brasil, Senegal, Geórgia, Índia, Indonésia e China. A sua integração na comunidade é excelente, e devo sublinhar a forma acolhedora como a população de Mação tem ajudado os nossos alunos estrangeiros, tal como a disposição destes em se integrarem, aprendendo os costumes locais e, claro, a nossa língua.
Há, por outro lado, um grande enriquecimento cultural, que decorre dos olhares que esses alunos e colegas trazem para o nosso quotidiano.
– Brevemente, irá a Associação Arqueojovem dispor de instalações em Ferreira do Zêzere, já facultadas pela Autarquia. Que ligação poderá ter este pólo de arqueologia com o Museu de Mação?
LO - Antes de responder à sua questão, gostaria de lembrar que a autarquia de Ferreira do Zêzere foi uma das duas primeiras autarquias da região a acolher a Arquejovem e, mais tarde, a participar na criação da rede do Parque Arqueológico e Ambiental do Médio Tejo, largamente graças ao empenho continuado do Prof. Carraço, responsável da ArqueoJovem no concelho e pessoa de referência no plano cultural em toda a região. Já há muitos anos se realizaram campos de trabalho de arqueologia, na zona de Pinheiros/Jamprestes, e o espaço que agora se disponibiliza é a concretização de um sonho antigo, que surge no quadro da afirmação dessa rede regional.
A ligação entre o núcleo de Ferreira do Zêzere e Mação, ou Tomar, ou Vila Nova da Barquinha, ou Riachos, ou Constância, ou qualquer uma das outras infraestruturas que se têm vindo a afirmar, já existe, pois, desde antes da disponibilização do espaço. Agora, à semelhança de outras realidades, deverá discutir-se a orientação estratégica específica. Na minha opinião devem ser consideradas duas vertentes: uma local e outra regional. No plano local, é desejável que esse espaço se construa como o ponto de referência das memórias do concelho, ou seja, dever-se-á trabalhar para que, daqui a algum tempo, seja natural a qualquer cidadão do concelho dirigir-se à ArqueoJovem para tratar de assuntos relacionados com o Património. No plano regional e nacional, importará identificar, de entre os muitos pontos de interesse patrimonial de Ferreira do Zêzere, qual o que pode constituir uma especificidade distinta de municípios vizinhos, na qual se aposte mais em termos promocionais. Ninguém melhor do que o Prof. A. Carraço e os colegas de Ferreira do Zêzere para definir os detalhes em cada uma destas vertentes, mas é evidente que o Instituto Politécnico de Tomar, o Museu de Mação e as outras entidades que integram o Parque Arqueológico e Ambiental, irão dar todo o apoio a este espaço.
– A Gruta de Avecasta, em Areias, é, apesar de estarem impossibilitadas as visitas, uma referência de estudo e turismo na região e, em especial, em Ferreira do Zêzere. O que pode ser feito por forma a colocá-la na rota de investigadores, estudantes e turistas?
LO - Hoje nada se faz isoladamente, e a forma de valorizar a Gruta da Avecasta é, de facto, integrá-la nos projectos do Parque Arqueológico e Ambiental, envolvendo a autarquia, os investigadores que a estão a estudar, etc. Posso dizer-lhe que estou a coordenar uma publicação sobre a Pré-História de Portugal, que será apresentada em Setembro de 2006 no Congresso Mundial de Arqueologia, que será bilingue (Português e Inglês), e que na região do Vale do Tejo irá referenciar a Gruta da Avecasta como um dos pontos de visita recomendada. A divulgação, por isso, vai sendo feita, mas agora é preciso que se garantam as condições de acolhimento e, já agora, que a nossa Região de Turismo não se alheie do processo.
João Rato
FERREIRA DIGITAL 18-01-2006